Você está bem feliz escutando música no carro, quando leva tremenda fechada, pisa no breque pra evitar bater, e de tão forte a brecada, que o seu celular é lançado longe. Você estaciona o carro ainda com as pernas tremendo, e quando pega o celular descobre que a tela está trincada. Resultado: a alegria de instantes atrás se torna numa tristeza, além claro, raiva pelo imprudente motorista que te deu a fechada.


Todos temos as normais flutuações de humor: Hora triste, hora feliz. Depois triste, e mais um pouco feliz novamente. Às vezes são acontecimentos externos que nos alegram ou entristecem, outras apenas um conteúdo de pensamento. E assim vamos vivendo como uma gangorra de emoções. Uma "bipolaridade" de emoções.


Mas quando gangorra vira montanha russa, ou seja, as flutuações de emoções são exageradamente intensas, de forma que uma tristeza pode transformar-se em depressão, e logo depois uma alegria pode transformar-se em euforia incontida. E pior: por vezes sem motivos aparentes, e estes extremos de humor tem o potencial de trazer graves prejuízos, não apenas à pessoa, mas bem como àqueles que o cercam. Assim temos o Transtorno Afetivo Bipolar (TAB).


No entanto, antes de falarmos do TAB, importa observarmos que existem tantas personalidades quanto habitantes na Terra. Há um espectro de personalidades. Porém podemos agrupar estas personalidades, enquanto humor, em 6 categorias:


1) Depressiva: Condição patologica com graves prejuízos nas esferas pessoais, profissionais, estundantis e finaceiras. 

2) Distímica: Refere-se àquela pessoa sempre "prá baixo", entristecida, de mal com a vida e que nada parece bom;

3) Eutímica: Humor normal e convencional. Tem controle com seus gastos, evita riscos desnecessários, relaciona-se e vive harmoniosamente. Sabe escutar, sabe falar. Cautelosa e regrada; 

4) Hipertímica: São aquelas pessoas que tem brilho no olho, expansiva, confiante com pique e que fazem as coisas acontecerem. São pessoas de temperamento forte. Correm alguns riscos. São falantes, influenciam nas coversas, são participativas. Normalmente criativas, espirituosas. Vaidosos, usam roupas coloridas;

5) Hipomaníaca: Passam da medida do hipertímico. São exageradas, dramáticas. Podem ser exibicionistas, tem muita energia. Normalmente precisam de pouco sono. Podem ser arrogantes. Normalemente são impulsivas. Acumulam dívidas. arriscam-se em demasia. Exagerados nos afetos. Não toleram posições contrárias, falam alto. Acelerados num todo, tem muitos planos. É do tipo de relacionamento entre "tapas e beijos". Podem ter casos extraconjugais, grande apetite sexual. Ousado no vestir, gosta de cores chamativas;

6) Maníaca: Condição patológica com graves prejuízos nas esferas pessoais, profissionais, estudantis e financeiras. São escandalosos, bem arrogantes, agressivos, dorme muito pouco. Gastos excessivos e dívidas impagáveis. Gosta de grandes riscos. Indiscretos, espalhafatosos. Fala acelerada, pensamentos acelerados e por vezes desconexos. Grita, ameaça, ofende quem discorda. Interrompe que fala. Relacionamentos curtos, turbulentos, indiscrições sexuais, orgias e grandes noitadas. Excesso é seu sobrenome.


Antes de tudo o TAB é uma doença. Suas causas ainda não são bem conhecidas, mas existem evidências que, assim como outros transtornos, tenha componentes genéticos e herdados. Portanto um portador do TAB é um herdeiro de uma predisposição genética para o desencadeamento da doença. Mas, bem possível, não ser o único componente, pois mesmos irmãos gêmeos univitelinos (em sua maioria se um irmão é bipolar o outro também o é), não acontece em 100% dos casos. Então existem outros componentes que podem ser propiciadores para o desenvolvimento do TAB. E entre esses sabemos que o estresse é um fator de risco importante. Mas ainda assim uma pessoa com a predisposição genética, passando por forte estresse pode não desenvolver a doença, posto ter uma capacidade psíquica e emocional para suportar e superar.


Existem diversas formas de TAB, espectros, e estudos indicam que podem se manifestar entre 1% até 8% da população. A idade média em que se desencadeia o TAB é entre 20 a 35 anos, mas também existem ocorrências antes e depois destas idades, inclusive em crianças. A prevalência é igual entre homens e mulheres, porém verifica-se que episódios maníacos são mais frequentes em homens e os episódios depressivos mais comuns em mulheres.


Há um fato importante, pois estudos também demonstram que o diagnóstico pode demorar em acontecer, ou seja, podem se passar anos até a pessoa receber o diagnóstico correto e encontrar o tratamento eficiente.


Também temos que levar em conta o estigma da doença, e entender melhor o TAB pode reduzir os julgamentos morais, e que sempre causam mais prejuízos ao portador.


Os portadores de TAB são aqueles que apresentam sintomas de depressão durante algum tempo, e depois mudam e apresentam sintomas de hipomania e mania. Estas flutuações podem demorar dias, semanas ou meses, como bem como podem acontecer várias vezes num mesmo dia.


Os sintomas da fase eufórica ou maníaca são em geral: Irritação, agitação, agressividade, hostilidade. Pensamentos grandiosos, autoestima inflada, pressão por falar, fuga de ideias, desejo de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Comum iniciar vários projetos e não finalizar nada. Distrai-se facilmente, não mede consequências de seus atos. Sentimentos de poder e tudo poder fazer. Pouca necessidade de sono. Impulsividade, envolvimento excessivo em atividades prazerosas, podendo ter comportamentos de risco como, por exemplo,  atividades sexuais com vários parceiros e não usar preservativos, ou fazer compras compulsivamente.


Os sintomas da fase depressiva são os mesmos de uma depressão unipolar, tais como: falta de ânimo, perda de interesse por atividades antes prazerosas, humor deprimido, tristeza profunda, perda ou ganho de peso, mudanças drásticas no sono (tanto dormir pouco, como dormir excessivamente), sentimentos de menos valia, fadiga, perda de energia, alterações na memória e/ou na concentração, e por fim, ideias de se fazer mal ao ponto de pensar em se suicidar.


O bom diagnóstico deve ser feito pelos médicos especialistas – os psiquiatras, e existem motivos para tanto, pois devem ser descartadas  possibilidades de outras doenças.



As condutas são:


1) De primeira linha o tratamento psicofarmacológico, ato exclusivo dos médicos e preferencialmente dos psiquiatras. O arsenal farmacológico disponível tem se mostrado, em boa medida, eficiente. Mas também existem casos mais refratários. E a medicina vem desenvolvendo outros tratamentos como ECT (eletroconvulsoterapia), que tem se mostrado extremamente eficaz e seguro;


2) Também fundamental o tratamento psicoterápico. E aqui precisamos superar alguns conceitos ultrapassados, e entre o mais retrógrados é tentar adaptar uma escola, uma linha de psicoterapia ao paciente. Quem o faz é por absoluta ignorância e incompreensão da dor e sofrimento do paciente.  O que temos que nos certificar é que antes de tudo está em jogo a saúde e bem estar do paciente.



Sob minha ótica e experiência pessoal tratando psicoterapicamente de pacientes bipolares creio serem essas as diretrizes de uma terapia eficiente e eficaz:


1) O paciente precisa reconhecer a doença, ou seja, saber-se doente;

2) Aceitar a doenças, ou seja, aceitar-se doente;

3) Fornecer apoio e continência ao paciente, pois ele deseja que seja compreendido e aceito;

4) Mas, por vezes, também é necessários ser duro e rigoroso com o paciente; dizer aquilo que é preciso ser dito;

5) Criar um bom vínculo terapêutico;

6) Como os encontros via de regras são semanais, compete ao terapeuta também acompanhar o uso regular da medicação, checando sempre se o paciente “esqueceu” do fármaco, ou se ele se acha bem e deseja parar. Compete única e exclusivamente ao psiquiatra estes manejos;

7) A falta de autocrítica é bastante comum ao portador do TAB, então o terapeuta dever ser, como dizia um paciente meu, o auditor das suas ideias. O senso de realidade durante a terapia pode e deve ser dada também pelo terapeuta;

8) Como a oscilação de humor é a característica marcante do padecente de TAB e a regularidade, linearidade, rotinas e regras não são observadas, compete ao terapeuta  estabelecer mecanismos, maneira e criar estratégias de como lidar com esses comportamentos e como lidar com a doença;

9) Dentre essas rotinas um fator preponderante e de proteção é o paciente ter regularidade de sono, por-se para dormir sempre no mesmo horário, e dormir o tempo suficiente, nem mais e nem menos;

10) Sempre me pergunto quem seria o paciente sem a doença, e esta pergunta é bem interessante, pois pode mostrar onde poderíamos chegar e evoluir;

11) Um dos maiores desafios para o portador do TAB é regular sua atividades cerebrais. Imagino ser um dispêndio enorme de energia ficar o tempo todo tentando regular seu humor e seus comportamentos, o que nós fazemos de maneira automática, não é assim tão simples ao paciente. Portanto desenvolver competências de auto-regulação de suas atividades cerebrais me parece outro objetivo importante;

12) Uma maneira de reduzir esse dispêndio de energia é municia-lo de técnicas de relaxamento e meditação. Sei que muito pode se beneficiar um portador de TAB fazendo uso da meditação;

13) Como estresse é fator de risco importante e desencadeador de crises é fundamental fazer com que o paciente saiba quais são os gatilhos estressores e ansiogênicos, e mais, que tenha em mãos estratégias para antecipar essas situações e superá-las;

14) A própria doença é fator de estresse. E afecções psicogênicas, ou seja, muitas neuroses podem estar contribuindo para potencializar a doença;

15) Ideação suicida pode surgir, e, portanto compete ao terapeuta imediata e prontamente tomar ações como informar a família, contatar o psiquiatra para que mediadas cautelares sejam tomadas, inclusive se necessário for a internação;

16) Psicoeducação é fundamental: saber qual a doença, suas particularidades, como funciona, os sintomas, a estigmatização, informar que, por exemplo, café/álcool tem potenciais de intensificar o TAB. Que atividade física é conduta psicoterapêutica, tal qual tomar a medicação diariamente;

17) Checar a cada sessão se houve algum episódio de mania;

18) Encontrar estratégias para superar as agressividades;

19) Focar na família, pois não apenas sofre o doente, mas sofre tanto, ou até mais, a família;

20) Se o padecente for casado e tiver filhos, mostrar que esses podem também serem portadores da predisposição para o TAB e, portanto cuidados especiais devam ser tomados com os pequenos como, por exemplo, manter regularidade de atividades, evitar superexposição ao estresse. Novamente regularidade no sono é fator protetor também para os filhos.



Enfim essas são algumas das condutas entre tantas para um bom desenrolar da terapia, e que vão muito além de uma escola ou teoria psicoterapêutica.


O mais importante é o paciente. E os estudos têm cada vez mais demonstrados que a melhor conduta e melhores resultados são encontrados pela conjugação da farmacologia com a psicoterapia.